FUNERAL
Cheguei atrasada ao enterro
Na esperança de que o tempo
fosse gentil pra esperar
perdoar meu erro!
Mas
seguia diante de mim – o corpo
E
todos choravam a dor invencível
Acompanhavam
a passos lentos
Os
passos solenes – foi horrível!
E
o som frio das lágrimas no chão
Se
ouvia ao longe – insanidade...
Como
se chovesse orvalho
Em
cada palavra de saudade
E
eu... cheguei atrasada ao enterro
Mas
vi o caixão que seguia
Os
passos de quem carregava
Não
esperava o que eu dizia
E
seguindo também eu estava
Não
tão sutil, nem calma
Desesperada,
chorosa e triste
Com
as lágrimas presas na alma
II
Querendo
falar o que trazia
O
que eu tinha preso querendo sair
Mas
seguia o caixão com meu desespero
E
ficava a mágoa que não resistia
Eu
ouvia o clamor
Sem
compreender
Que
eu chamava em vão
O
que agora era só pra esquecer
Aquela
agonia terrível
Assolava
meu coração
Devorava
meus pensamentos
E
cada canto de ilusão
E
quando pararam o corpo
Para
a descida do caixão
De
onde eu estava – descalço
Eu
gritei – não!
E
corri com uma nuvem
Que
estava no meu olhar
Atrasada,
chorando
Pedi
para o caixão não baixar
III
Abracei
o mogno frio...
Todos
ficaram distantes
A
dor era grade demais
Acabava uma história de amantes
Naquele
caixão estava
O
corpo de uma mulher
Que
amou, que sofreu
A
intensidade de viver
Uma
mulher marcante
Descia
naquele caixão frio
E
do lado de fora eu olhava
No
olho – um brilho vazio
Do
caixão, eu sentia um perfume
Que
não era desconhecido
Inalei
lembranças de um passado
Num
futuro perdido
Naquele
caixão estava
Alguém
que eu não sabia
Apenas
uma dor forte
Na
alma eu sentia
IV
Então,
abriram o caixão
Como
se eu não estivesse presente
E
uma surpresa maior
Tomou-me
de repente
Olhei
para as pessoas ao meu lado
Eram
amigos e familiares
As
flores que eu amava
Lançadas
nas frias lages
Até
meu violão estava presente
Nas
mãos de um amigo
Tocava
a música preferida
Do
meu álbum mais ouvido
Em
poucos segundos eu contemplei
A
cena triste relatada
E
percebi depois de tudo
Que
eu não estava atrasada
Chegada
a hora mais sofrida
Aproximei
do vidro do caixão
Senti
meu perfume... me vi num espelho
Toquei
triste minha fria mão!
FERNANDA LISBOA

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