quarta-feira, 27 de julho de 2016

FUNERAL



Cheguei atrasada ao enterro
Na esperança de que o tempo
fosse gentil pra esperar
perdoar meu erro!

Mas seguia diante de mim – o corpo
E todos choravam a dor invencível
Acompanhavam a passos lentos
Os passos solenes – foi horrível!

E o som frio das lágrimas no chão
Se ouvia ao longe – insanidade...
Como se chovesse orvalho
Em cada palavra de saudade

E eu... cheguei atrasada ao enterro
Mas vi o caixão que seguia
Os passos de quem carregava
Não esperava o que eu dizia

E seguindo também eu estava
Não tão sutil, nem calma
Desesperada, chorosa e triste
Com as lágrimas presas na alma

II

Querendo falar o que trazia
O que eu tinha preso querendo sair
Mas seguia o caixão com meu desespero
E ficava a mágoa que não resistia

Eu ouvia o clamor
Sem compreender
Que eu chamava em vão
O que agora era só pra esquecer

Aquela agonia terrível
Assolava meu coração
Devorava meus pensamentos
E cada canto de ilusão

E quando pararam o corpo
Para a descida do caixão
De onde eu estava – descalço
Eu gritei – não!

E corri com uma nuvem
Que estava no meu olhar
Atrasada, chorando
Pedi para o caixão não  baixar

III

Abracei o mogno frio...
Todos ficaram distantes
A dor era grade demais
Acabava  uma história de amantes

Naquele caixão estava
O corpo de uma mulher
Que amou, que sofreu
A intensidade de viver

Uma mulher marcante
Descia naquele caixão frio
E do lado de fora eu olhava
No olho – um brilho vazio

Do caixão, eu sentia um perfume
Que não era desconhecido
Inalei lembranças de um passado
Num futuro perdido

Naquele caixão estava
Alguém que eu não sabia
Apenas uma dor forte
Na alma eu sentia

IV

Então, abriram o caixão
Como se eu não estivesse presente
E uma surpresa maior
Tomou-me de repente

Olhei para as pessoas ao meu lado
Eram amigos e familiares
As flores que eu amava
Lançadas nas frias lages

Até meu violão estava presente
Nas mãos de um amigo
Tocava a música preferida
Do meu álbum mais ouvido

Em poucos segundos eu contemplei
A cena triste relatada
E percebi depois de tudo
Que eu não estava atrasada

Chegada a hora mais sofrida
Aproximei do vidro do caixão
Senti meu perfume... me vi num espelho

Toquei triste minha fria mão!

FERNANDA LISBOA

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